sexta-feira, 13 de março de 2015

Luto e fenomenologia: uma proposta compreensiva

3. Primeira Redução: Significados Culturais e Sentidos Familiares sobre a Morte e o Luto - o Horizonte Histórico

Se quisermos nos indagar sobre os fenômenos humanos tal qual se apresentam para nós é necessário que façamos reduções tais que nos permitam recuperar o próprio fenômeno em questão a tal ponto que a única coisa que não podemos perder de vista ou reduzir, é a própria experiência do fenômeno, como ele se apresenta. Os fenômenos humanos estão sempre colocados em um panorama histórico e cultural, estão sempre "sujos de mundo", portanto, é preciso perguntar-se: de que mundo falamos? De que história? E para nós: de que morte e de que luto? É possível afirmar que independentemente da cultura dá-se uma mesma experiência de luto? Como a indagação fenomenológica pode nos ajudar? Estaríamos falando da mesma morte entre os índios sul-americanos (quais?) e um Europeu no século XIX ou um chinês do século XXI? O que nos leva a pensar o horizonte quando adotamos uma análise reflexiva fenomenológica?

Assim como o tema da alteridade e o da vivência do sentido subjetivo, o horizonte se constitui inegavelmente como tema fundamental para a configuração do sentido. Sendo preocupação central da fenomenologia, o sentido deve ser, portanto, compreendido como um dos pontos de articulação de todos estes elementos. Segundo Husserl (1954/2008, p. 264):

Sou, facticamente, numa presença co-humana e num horizonte aberto de humanidade, sei-me facticamente num contexto generativo, numa corrente de unidade, de uma historicidade na qual este presente é, da humanidade e do mundo que lhe é consciente, o presente histórico de um passado histórico e de um futuro histórico.


O horizonte, no sentido fenomenológico, não é apenas a referência para os fenômenos em seus modos de apresentação (aparições) atuais, como também se refere a outros modos potenciais do aparecer do fenômeno (Geniusas, 2010). O horizonte é, portanto, "o que limita e determina cada e todo fenômeno", é relativo a nossa situação corrente e se apresenta como versátil em seus limites (Geniusas, 2010, p. 84). O horizonte histórico nos permite vislumbrar os contextos de apresentação nos quais são possíveis as articulações de sentido na presentação do fenômeno e não como elemento que define o fenômeno per se. É "aquilo que se deve desde o início ter em vista como tema psicológico" (Husserl, 1954/2008, p. 264).

Como podemos então circunscrever nosso tema em seu horizonte histórico? Qual horizonte se apresenta hoje no que diz respeito à morte e ao luto, ao reduzirmos as singularidades das relações? A literatura antropológica já há muito relata as diferentes formas que pelas quais sociedades humanas realizam seus ritos fúnebres e certos modos de aparição do fenômeno do luto (Ribeiro, 2002; Kouri, 2010; DaMatta, 2011). Segundo Durant (1995) os primeiros ritos humanos surgem diante da morte e do morrer. Tais ritos cumprem o relevante papel de restauração de uma ordem que foi abalada pela morte, com suas dores, temores e perigos. Do ponto de vista antropológico a morte física não é suficiente para consumar a própria morte. Do ponto de vista psicológico também não o é. E tampouco o é existencialmente.

Em uma completa e aprofundada revisão sobre o tema, Ribeiro (2002) afirma que o paradigma antropológico de Hertz é de extrema relevância para a compreensão da morte e do luto nas mais diferentes culturas, até os dias atuais. Segundo este paradigma, independente da cultura, os ritos fúnebres envolveriam três aspectos: oferecer ao corpo ou restos mortais um lugar, ajudar a alma a inserir-se na morada dos mortos e liberar os vivos do luto a que estavam presos. A ruptura das relações e das atividades socialmente constituídas pode então ser reestabelecida com a liberação do luto. Todavia, cada sociedade vivencia tais ritos de formas diferentes, com sentidos diferentes. Entretanto, paradoxalmente diante de um mesmo fato: o fato da morte e da separação, com a imposição da quebra de vínculos e de uma demanda de significação diante da nova configuração relacional (eu-tu, seja no âmbito familiar ou comunitário). Segundo Kouri (2010), a sociedade brasileira vive uma ambivalência com relação à morte e ao luto, vivendo entre a subjetivação das emoções, a necessidade de enfrentamento da morte e da perda e a imposição cultural da discrição sobre as emoções.

Historicamente apresentaram-se na cultura ocidental diferentes formas de compreender e lidar com a morte. Segundo Ariès (2003) no ocidente vivenciou-se duas concepções distintas de morte, a saber, a Morte Domada e a Morte Interdita que por seu turno, refletem em formas também distintas de compreensão do luto.

Na experiência da Morte Domada houve a predominância de um sentimento de familiaridade com a morte. Esta não se relacionava a medo ou desespero, mas era entendida como um processo natural onde o moribundo não só estava consciente da proximidade de sua morte, como era protagonista na organização desse processo (Ariès, 2003). De acordo com o autor, os doentes sabiam quando morreriam, pois por um lado, não estavam sub-metidos aos procedimentos hospitalares que não permitem clareza aos leigos sobre o processo de adoecimento e, por outro, com o conhecimento precário das ciências médicas tinha-se algum conhecimento cotidiano sobre determinados processos mórbidos. O doente, então, ao pressentir uma doença incurável, chamava seus parentes e amigos e cumpria o "ritual de despedida": pedia perdão por suas culpas, legava seus bens e esperava a morte chegar. Não havia um caráter dramático ou gestos de emoção excessivos. Essa atitude na qual se compreendia a morte como fenômeno próximo, insensibilizado e familiar é oposta à postura adotada na atualidade, onde simplesmente mencionar a morte implica tão fortemente na ideia de medo e desespero que evitamos mesmo pronunciar seu nome (Ariès, 2003).

No século XVIII, a morte toma um sentido dramático, ganhando a conotação de evento que rouba o homem de seu cotidiano e sua família. Nesse momento o luto adquire novos contornos: perde seu caráter natural e se torna "exagerado", onde o personagem principal desse drama passa a ser a família em detrimento do moribundo. O temor não é o da própria morte, mas o da perda do outro (Ariès, 2003), abre-se um novo horizonte de possibilidades de apreensão da morte enquanto fenômeno.

Desde a segunda metade do século XIX, a morte se transformou em tabu: os parentes do moribundo passaram a poupá-lo de sua própria morte escondendo a gravidade do seu estado. Com os avanços da medicina no século XX testemunhamos a mudança da representação social da morte: já não se morre em casa a seu tempo e com os seus, mas no hospital e em grande parte das vezes, sozinho. Os progressos da ciência permitem prolongar a vida, os pacientes podem ser condenados a meses ou anos de vida vegetativa ligados a tubos e aparelhos, ou seja, fora extirpado do moribundo não só o saber sobre sua própria morte, como também, seu direito a ela - é a morte interdita que se apresenta (Ariès, 2003).

Contemporaneamente, a regra implícita na morte e no morrer é a da neutralização dos ritos funerários e a ocultação de tudo que diga respeito à morte, o que implica diretamente na forma que se concebe e se vivencia o luto, cada vez mais percebido como vivência patológica, pois proibida, e não mais como um período natural e passageiro. A hipermedicalização do luto em nossa sociedade é um exemplo de tal patologização e que nos exige repensar o papel dos rituais no processo de luto. Kouri (2010) já nos mostra como o luto tem sido circunscrito na cultura da discrição das emoções, típica da atual sociedade brasileira. Expressar-se emocionalmente pode ser sinal de falta de controle das emoções e, portanto um ato tido como desapropriado ou de desespero. A supressão dos ritos na sociedade atual pode, portanto, dificultar a vivência da perda de sentido do mundo-da-vida e sua consequente ressignificação.

Outro elemento socialmente relevante além da relação que se estabelece entre a cultura e a morte como um fato generalizado da condição humana são as concepções sobre os diferentes tipos de morte. As concepções variadas sobre suicídio, adoecimento crônico, mortes violentas, mortes infantis ou em idade avançada são também especificidades que precisam ser mais bem estudadas para a compreensão do impacto da morte em um grupo e seu consequente campo de possibilidades no horizonte da vivência do luto.

Por fim, destacamos que do ponto de vista fenomenológico o que é relevante reconhecer no que diz respeito ao horizonte é o seu lugar como campo de articulação de sentido e de validação das organizações de sentido e das vivências (Geniusas, 2010). O horizonte não se constitui, portanto, como uma influência "de fora para dentro", mas se apresenta como condição de presentação mesma dos fenômenos, enquanto possibilidade e validade e, portanto deve ser continuamente revelado. As possibilidades de presentação de um fenômeno se referem às articulações de sentido e a implicações de outros aspectos, ou perfis, não revelados no perfil ora apresentado, mas que são parte da experiência que se apresenta subjetivamente. É assim que entendemos a contribuição de uma compreensão antropológica da cultura ao estudo do luto: como um conhecimento que nos expõe possíveis perfis de apresentação, estruturação e organização dos contextos de articulação de sentidos e não como seu determinante, o que nos leva a nossa segunda redução na busca de uma aproximação ao fenômeno do luto: como o mundo de todos nós se apresenta na ausência do tu que é o próprio cerne da experiência do luto? Ao retirarmos todas as conjunturas da atualidade como podemos descobrir a própria experiência subjetiva que reside na separação, na ruptura ou, pelo menos, em uma modificação da intencionalidade do mundo na ausência de um tu fundamentalmente significativo?