sexta-feira, 13 de março de 2015

Luto e fenomenologia: uma proposta compreensiva

 

4. Segunda Redução: A Intersubjetividade e a Imposição de uma Mudança no Modo de Apresentação do Tu

Como assinalamos na introdução descrevemos o luto como uma mudança abrupta nos modos de apresentação do tu. Ao falarmos do luto como uma mudança abrupta em uma relação eu-tu, o nosso próximo passo nos leva invariavelmente a um dos problemas centrais da fenomenologia: a questão do outro e da revelação da subjetividade como intersubjetividade. O outro aqui se apresenta como existencialmente dado e não como ciência. O outro não é um ob-jectum do meu conhecimento, mas sujeito coexistente em minha experiência de ser-no-mundo, calcado nesse "fundo", nessa situação comum que é nossa intercorporeidade. É uma evidência irrefutável, não uma pressuposição. Como nos ensina Merleau-Ponty (2002, p. 169): "o mistério de um outro não é senão o mistério de mim mesmo".

Conhecer o outro não significa reconhecer sua existência ou agir conforme sua presença inalienável em meu campo existencial, em meu mundo-da-vida. O outro é parte do campo da subjetividade e, portanto, se apresenta como campo de existência e não como um objeto para o conhecimento de um "eu". Não haveria um "outro" se não estivéssemos expostos a um mesmo mundo, se seus gestos e sua expressão não me remetessem à proliferação de sentidos em meu campo existencial, a um reconhecimento de meu ser-no-mundo (Merleau-Ponty, 2002). Sendo o outro co-presença, sua desaparição enquanto mortal produz uma modificação do meu campo existencial, do meu mundo vivido, exigindo-me novas formas de ser-no-mundo. É este o campo no qual experienciamos o luto: um campo de exigência de um novo sentido, de uma nova forma de ser-no-mundo, de ressignificação da relação vivida com o ente perdido. Ou ainda, podemos dizer que "este conjunto de vivências que a pessoa nos apresenta faz parte de uma totalidade que pode ser nomeada como seu mundo-da-vida, expressão que traduz o Lebenswelt" (Queiroz e Mahfoud, 2012, p. 42).

A supressão abrupta da presença do tu em um modo específico de mostrar-se na relação é o elemento crucial e disparador da experiência do luto. Não que o "tu" desapareça, antes, desaparece uma maneira de ser "eu" diante do "tu", pois o outro não é uma ciência que tenho dele, mas como dissemos anteriormente, é uma experiência de abertura do mundo. Explico-me: o "tu" não estará mais presente em sua corporeidade, com sua voz, seu toque, seu cheiro, sua materialidade, entretanto não cessa de se apresentar como parte da existência do enlutado: lembranças, fotos, desejos, vidas e momentos partilhados fazem com que o "tu" não cesse totalmente de se apresentar, entretanto, não partilhará mais do mundo como um "outro eu mesmo". A existência será doravante uma presença que se anuncia na ausência. O que falta ao enlutado, mais do que o "tu", é um modo usual, habitual de ser "eu", um modo de ser-no-mundo, uma infinidade de significações próprias e inerentes a um campo relacional. Doravante, não haverá mais copresença para que certa forma de partilhar o mundo e, portanto, de ser no e com o mundo se apresente em meu campo de coexistência. Se, afirmarmos com Merleau-Ponty (2002), que "o outro se insira sempre na junção do mundo e de nós mesmos", constatamos que o outro se apresenta como uma realidade antropológica para o "eu sou" e não para o "eu penso". Nessa forma de interpenetração homem-mundo, tal interpenetração se abala na experiência da morte do outro e em seu luto decorrente.

O morto será uma presença-ausente no mundo do enlutado, como aquele amigo que não virá mais ao nosso encontro e que se nos apresenta quando olhamos a garrafa de vinho separada especialmente para com ele partilharmos (ou que com ele fora outrora partilhada). Todavia, em nosso exemplo, nosso amigo não poderá mais pela sua própria ação e existência exercer qualquer mudança em nossas vidas, posto que morto está. Essa forma de convivência com o morto pode por vezes ser entendida como uma resistência de esquecimento dos mortos, como se eles continuassem a partilhar desse mundo (Despret, 2011). E de fato continuam coexistentes no mundo vivido do enlutado, mas de outra forma, ainda como campo de coexistência, porém não mais como intercorporeidade, indiferentemente da significação cultural que se atribua à morte e ao morrer. Todos os sentidos partilhados em uma vivência eu-tu entre o morto e o enlutado, continuam a "falar", entretanto, são desconexos e exigem serem vividos de uma nova forma, ou mesmo com novas significações. Enquanto as novas formas de sentido e os rituais que permitirão ou não essa passagem são estruturados culturalmente, a mudança é intrínseca à coexistência, ao fato de que nossa subjetividade revela-se apenas como intersubjetividade, ou "suja de mundo", como descrito por Merleau-Ponty.

A relação eu-tu é sempre reveladora não apenas do outro, mas também da transcendência por meio do "entre". É reveladora de um universo de experiências e de uma forma própria de ser um "eu". Cada relação é singular e nos permite ser de particular forma, apesar de não pré-determinada. Essa propriedade que se revela em relação é, então, perdida, exigindo-nos uma variação das habituais formas de ser-no-mundo. Perder um "tu" com quem nos relacionamos é, portanto, uma forma de perder um espaço expressivo de si mesmo. Uma abertura ao mundo e do mundo desaparece, assim como um universo próprio de significações e vivências, um modo de ser "eu" que é específico daquela relação, particular e única.

O outro é sempre uma copresença. O outro não cessa de se anunciar, todavia os modos de ser que se apresentam para o enlutado se restringem a poucas possibilidades de expressão, mais a lembranças do que efetivamente a presenças, são expressões de um ausente, uma vez que nossa tese comum, a corporeidade, é desfeita com o acontecimento da morte. O mútuo engajamento tácito eu-tu, torna-se explícito assim como em uma revolução, como afirma Merleau-Ponty (1994). É uma dor que não tem nome e que não pode ser descrita objetivamente, ou como diríamos fenomenologicamente, é a explicitação de uma coexistência irrecusável e do "sabor mortal" da existência (Merleau-Ponty, 1994).

Nota-se que em nossa perspectiva o luto é um evento que se torna parte da vida do sujeito de maneira única, não é resolúvel ou passível de superação, tal como difundida pela psicanálise, posto que é uma ruptura de um mundo vivido impossível de se reapresentar. Ele consiste sim em um processo normal e esperado de transformação da relação com a pessoa perdida, tarefa que permite sua ressignificação exigida. Do ponto de vista fenomenológico a ressignificação exigida é, portanto, da relação eu-tu e não do luto. Ou seja, o luto não termina com uma "resolução", com a volta à vida que o sujeito vivia antes da perda, mas sim com a incorporação deste evento na vida do enlutado, de tal modo que possa seguir a vida adiante com uma conexão contínua, porém nova, com o ente perdido.

 

Considerações Finais: Diante do Luto

A literatura aponta que a morte de um ente querido e o luto são momentos de reflexão sobre a própria finitude permitindo novos modos de enfrentar o próprio existir (Santos & Sales, 2011). Existencialmente vimos que o luto constitui-se como a ausência da co-corporeidade do tu na relação eu-tu, o que não significa um esvaziamento do mundo, mas uma apresentação de um novo mundo, de uma nova forma de presença do outro, exigindo um novo sentido: "A morte de alguém amado nos aliena do mundo e do senso de self que se mantém na vida cotidiana no mundo com os outros. Ele por vezes "nos individualiza" jogando-nos em um mundo totalmente desprovido de sentido e âncoras" (Sopcak, 2010, p. 90). A morte do outro não é a experiência de minha própria morte, entretanto, me revela o sentido ontológico de minha morte além da própria "desaparição" do outro, de sua desaparição do meu campo de possibilidades, da revelação de sua ausência e de nossa finitude (Sciacca, 2001).

Tomando a intersubjetividade como elemento fundamental da compreensão da vivência do luto tempos por implicação que a "superação" da perda é impossível. Há que se levar em conta que tomar a existência como um campo de coexistência rompe com a ideia de uma relação entre sujeito e objeto, tal como apresentada na psicanálise, por exemplo. Não há mais a possibilidade de substituição do objeto perdido, pois essa forma irrefletida pela qual sou revelado em-relação se mostra como fenômeno próprio da relação eu-tu. Não há substituição possível às formas de significação que se apresentam nesse universo perdido com a morte de um ente querido. Sendo revelada intersubjetivamente, compreende-se que toda e qualquer mudança subjetiva, incluindo-se o luto, se apresenta sempre como uma nova abertura do mundo, um novo entrelaçamento que se anuncia, agora, porém sem intercorporeidade, ou ainda, entende-se que "toda ausência é apenas o avesso de uma presença, todo silêncio é apenas uma modalidade do ser sonoro" (Merleau-Ponty, 1994, p. 488). Do ponto de vista fenomenológico-existencial não há resolução ou substituição possível, como defende a psicologia clássica, mas possibilidades de reconfiguração de um campo de coexistência, do mundo vivido, a partir dessa ausência-presente do outro, do "tu" em "mim". A tarefa então seria a de ressignificação da relação eu-tu e não uma superação do luto.

Cada fenômeno em seus modos de aparição implica em um sistema de referências que contém todas as formas de apresentação e que permitem, por um sistema de aparências ou perfis, a aparição da vivência atual (Geniusas, 2010). Vimos como fenomenologicamente pode ser descrita a vivência do luto, a saber, por meio da articulação de três propriedades essenciais que se apresentam no mundo-da-vida: 1) As inéditas exigências de sentido e de ser-no-mundo desde o momento em que as formas de apresentação do outro na relação se modificam com sua supressão; 2) As especificidades da relação e, 3) Seu horizonte histórico de apresentação.

Por fim, concluímos que a exigência da elaboração rápida e imediata vivida na atualidade de nossa sociedade pode ser por uma perspectiva fenomenológica substituída pela compreensão do outro como abertura de si. A vivência da perda e a consideração da abertura ao horizonte da finitude que se apresentam neste momento são fundamentais para a articulação de novas formas de sentido do outro e de si mesmo no horizonte existencial do enlutado. Enlutar-se é no horizonte do ser-para-morte projetar-se como ser-no-mundo.