sexta-feira, 13 de março de 2015

Luto e fenomenologia: uma proposta compreensiva

2. A Especificidade de Cada Mundo: Particularidades das Relações Eu-Tu e o Luto

Todas as relações significativas estão sujeitas ao luto. Somos parte uns dos outros e nosso sentido existencial está atrelado ao sentido do que somos a alguém e do que podemos ser na relação com alguém. Certamente há amigos para quem nos sentimos mais significativos do que para alguns parentes, ou ainda, há meros conhecidos que nos permitem conhecermo-nos mais que os íntimos.

O impacto da morte de outrem e o consequente luto não se definem por rótulos interacionais, entretanto o luto é diferentemente vivenciado a depender da qualidade da relação que mantemos ou mantínhamos com quem perdemos. Para um adolescente pode ser muito mais impactante perder um colega de escola em um acidente ou por uma doença fatal do que perder seu avô ou avó. Na velhice, o luto dos amigos que se vão um a um é uma experiência que remete incessantemente à própria condição de envelhecimento e a uma vivência exacerbada de solidão, intensificando os processos e as vivências do luto (Elias, 2001). O luto de um amante com quem se vivia em segredo pode ser cruel pela impossibilidade expressa da manifestação de sentimentos em público. Tais elementos tão específicos de cada relação, sempre se articulam e só emergem conforme as possibilidades dadas pelo horizonte histórico, em articulação com o mundo que habitamos, nosso singular mundo-da-vida.

A investigação fenomenológica visa compreender os invariantes (fenômenos) que se apresentam como intencionais e não enquanto individuais (Giorgi & Sousa, 2010). Entretanto, quando lidamos com o sofrimento no cotidiano do trabalho do psicólogo é necessário que se articule os aspectos gerais e invariantes com os aspectos específicos da vivência dos sujeitos empíricos em seus sistemas de referências, a saber, os horizontes histórico e subjetivo. Portanto, não se deve ignorar que a experiência vivida é sempre implicada pelo horizonte, que se constitui como um sistema de referência subjetiva, onde o sentido da aparição do fenômeno é nele e por meio dele articulado (Geniusas, 2010). Ocupar-se da singularidade como modo de apresentação do universal é ter a preocupação específica do campo psicológico na compreensão e acolhimento do sofrimento em sua empiria mundana, cotidiana.

Apesar de seu contexto psicológico que pode ser analisável e classificável, fenomenologicamente, a especificidade da relação só pode ser compreendida no contexto da vivência e do sentido, onde o esforço metodológico se dirige à busca da compreensão das vivências enquanto fenômenos. As descrições apresentadas diante de cada relação de onde emergem os sentidos da perda e do luto é o tema por excelência das investigações no campo da psicologia fenomenológica do luto, pela natureza do seu método e suas possibilidades de descrições de vivências (Van Manen, 1990; Giorgi, 2009; Mortari & Tarozzi).

Os estudos sobre vivências fenomenológicas do luto são cada vez mais comuns como podemos constatar, por exemplo, no levantamento sobre estudos que investigam a vivência do luto no seio familiar e fenomenologia (Ambrósio & Santos, 2011; Barbosa, Melchiori & Neme, 2011; Santos & Sales, 2011), estudos sobre viuvez (Turatti, 2012) e sobre a perda do filho (Alarcão, Carvalho & Pelloso, 2008), estudos sobre ritos culturais e a experiência do luto (Sopcak, 2010).

Tanto do ponto de vista antropológico quanto psicológico o luto é invariavelmente descrito como uma vivência que tem sentido dentro de um grupo (Bromberg, 1996; Ribeiro, 2002). Para pensar as especificidades do luto e seus mundos tomamos aqui como exemplo o grupo familiar, um dos grupos culturais mais "duros", pela especificidade e delineamento dos papéis que apresenta, apesar das imensas variações encontradas nas vivências de cada papel e de cada família na contemporaneidade. Ressaltamos que os laços grupais familiares que consideraremos como relevantes para a compreensão do luto são formados independentemente de laços consanguíneos ou de gênero. Apesar de as relações familiares serem perpassadas pelo contexto sociocultural, cada família se arranjará e se estruturará de um modo particular e único.

O grupo familiar é tido como um dos mais relevantes em nossa cultura, com papéis, funções e relações bem delimitadas e estabelecidas, mesmo que em constante mudança. Entretanto, devido ao campo das singularidades há, certamente, muitas formas de ser mãe ou irmão. Tais formas podem ser pensadas, mas não previstas, pois cada família tem um sentido e uma configuração para os papéis que são desempenhados pelos diferentes membros do grupo e a isso o psicólogo que atua na área deve estar atento. As descrições fenomenológicas só alcançarão a compreensão das especificidades dos contextos e seus diversos modos de relação familiar.

Na literatura, há dois aspectos relevantes apontados para o estudo do luto no contexto da família: o ciclo de vida (Brown, 1995) e a reorganização do sistema familiar (Bromberg, 1996). Diferentes situações vêm à tona com a morte de um de seus membros. A exigência de reorganização frente ao novo campo relacional se impõe, com necessidades e rearranjos próprios de cada sistema. O luto materno, por exemplo, é um dos mais estudados pela literatura e um dos mais significativos em nossa cultura. A história e a antropologia já nos demonstram as diferenças entre os lutos vivenciados nos diferentes contextos relacionais. Entre os índios Carajás, por exemplo, que cortam seus cabelos no período de luto, as mães são aquelas que os cortam mais curtos (Azoubel Neto, 1991). No Brasil, quando ainda se guardava um luto aparente, as mães eram as únicas que usavam luto fechado para o resto da vida, diferente das viúvas e dos que perdiam seus pais. Já na Roma Antiga o luto materno aparece com destaque: Sêneca (4a.c.-65d.c.) em uma de suas "consolações"1, já escrevera Consolação à Márcia (Caroço, 2011) com descrições de mães romanas assustadoramente fiéis às vivências das mães brasileiras contemporâneas. No contexto das relações familiares uma das questões colocadas pela psicologia é, por exemplo, sobre a função materna. Como a mãe que perde um filho se vê agora, sem seu filho? É uma mulher que possui outras funções na família e na sociedade? Quais as funções que lhe são agora exigidas? Como se relaciona com os outros filhos? Quais são os sentimentos emergentes nesse processo (culpa, vazio, medo, revolta ou outros)?

Apesar desses aspectos que são mais evidentemente partilhados e que merecem estudos mais aprofundados, há que se avaliar em cada caso, no contexto da atuação clínica e de uma análise psicológica fenomenológica, as particularidades de cada uma das relações rompidas. Há mães que perdem seus filhos por acidente, por suicídio, adoecimento agudo ou crônico e que as colocam em posições diversas diante da vivência do luto, impossibilitando a generalização desta experiência. Há mães que acreditam não terem cumprido com seus papéis adequadamente e se culpam. Há aquelas que não desempenham outros papéis em seus grupos e se mantém cuidando do filho já falecido por meio de variados modos: lutas judiciais, sentimentos de vingança ou justiça (seja com os homens ou com Deus), caridade, homenagens aos entes queridos.

A viuvez é também tida como um processo longo e doloroso. Bromberg (1996) aponta que o momento do ciclo de vida familiar é de fundamental importância para a compreensão da vivência do luto. Na viuvez, pergunta-se: foi um casal jovem que foi desfeito ou um casal já com os filhos criados? Obviamente tais questões são relevantes, entretanto, a comparação é impossível uma vez que um casal aposentado poderia estar justamente vivendo um momento de "segunda lua de mel" ou de concretização de um plano ou uma viagem pós-aposentadoria. Portanto, destacamos que do ponto de vista da psicologia fenomenológica o mais relevante e central é a descrição do sentido da relação, mesmo que essa seja psicologicamente contextualizada no momento do ciclo de vida familiar ou segundo o rearranjo das funções de um sistema. A morte de um pai provedor, porém, repressor, pode produzir sentimentos ambíguos como culpa, alívio e sobrecarga pelas exigências familiares que repousam sobre um jovem filho que se vê responsável por seus irmãos mais novos.

A literatura psicológica, portanto, por tratar da singularidade, apresenta elementos que não são estranhos a uma análise fenomenológica no contexto clínico: as variações da vivência do luto são influenciadas pela qualidade do vínculo entre o morto e o enlutado, assim como as especificidades da relação dos que estão envolvidos. Entretanto, do ponto de vista fenomenológico enquanto olhar compreensivo e descritivo não é possível manter-se apenas no nível de análise da singularidade.

Para alcançar uma descrição das vivências é preciso encontrar uma conexão entre a singularidade, o campo original da percepção de cada um e o mundo da correlação recíproca. "Noutros termos, cada um de nós tem o seu mundo da vida, visado como o mundo de todos" (Husserl, 1954/2008, p. 266). É preciso incluir à existên-cia, aos juízos e às experiências, a historicidade. Portanto, passaremos agora à reflexão sobre o horizonte histórico e as especificidades da cultura brasileira nas concepções sobre a morte e luto cumprindo uma redução, um passo metódico. O luto pode, como toda e qualquer experiência, ser tematizado na sua particularidade e no horizonte de sua historicidade. Toda ruptura vivida em uma experiência de coexistência ocorre articulada ao contexto específico ou psicológico da relação. Passemos então à compreensão do horizonte histórico.