sexta-feira, 13 de março de 2015

Luto e fenomenologia: uma proposta compreensiva

Joanneliese de Lucas Freitas

Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de Brasília (UnB). Professora Adjunta e Vice-Coordenadora do Laboratório de Fenomenologia e Subjetividade (LabFeno) da Universidade Federal do Paraná. Endereço Institucional: Departamento de Psicologia. Universidade Federal do Paraná. Praça Santos Andrade, 50 - Sala 215 (Ala Alfredo Buffren). 80020.300. Curitiba/PR. Email: joanne@globo.com

 

 

RESUMO

O luto é compreendido pela literatura psicológica como uma reação frente a perdas significativas. Do ponto de vista existencial pode ser compreendido como uma vivência típica em situações de transformação abrupta nas formas de se dar do ser em uma relação eu-tu. O presente texto tem como objetivo apresentar uma compreensão descritiva de tais processos. Inicia-se com uma descrição de seu aspecto particular e possibilidades de interpretações psicológicas. Ao colocar a singularidade entre parênteses busca-se uma breve descrição do horizonte histórico de presentação da morte na atualidade e seus modos de aparição. Por fim, ao reduzir o histórico, apresenta-se uma descrição do luto como vivência que emerge de uma mudança abrupta em uma relação eu-tu com a supressão da corporeidade do tu. Uma vez que fenomenologicamente a subjetividade é revelada enquanto intersubjetividade, conclui-se que a ruptura de uma relação é, portanto, a ruptura de uma abertura ao e do mundo e de formas de ser-no-mundo do enlutado. O luto é, deste modo, uma vivência que aparece com uma forte exigência de ressignificação do mundo-da-vida, onde o que é perdido pelo enlutado não é apenas um ente querido, mas também formas próprias de ser-no-mundo.
 

Introdução

Atualmente há divergências significativas no modo de se compreender o luto. O tema volta ao centro das discussões sobre saúde mental no bojo da elaboração do novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). No DSM, 4ª edição (DSM-IV-TR), o luto (V62.82) é apresentado como uma condição clínica que pode demandar auxílio profissional para alívio de sintomas associados. Suas manifestações aproximam-se daquelas de um Episódio Depressivo Maior e são consideradas "normais" mesmo quando se perpetuam por um período maior que dois meses (American Psychiatric Association, 2003). Ao que tudo indica, na próxima edição do DSM (DSM-V), o luto poderá ser catalogado não mais como um período natural e passageiro e sim como uma vivência patológica, dentro de determinadas condições e com limites de tempo rígidos para seu diagnóstico (duração de sintomas severos por mais de seis meses) (Kamens, 2010; Pies e Zisook, 2010). Tais diferenças na apreensão do fenômeno apresentam consequências diretas no seu enfrentamento, o que torna estudos mais aprofundados sobre esse tema de vital relevância.

O luto vivido em decorrência da morte de um ente querido não é somente uma experiência dura e profunda de perda, mas também a evocação de nossa condição mortal, assim como da inevitabilidade e irreversibilidade da morte. Seus aspectos ontológicos podem tornar seu enfrentamento mais árduo, além de se apresentarem como situações potencialmente reveladoras de conflitos anteriormente já vividos na história do enlutado que encontram no processo de luto espaço para (re)significação.

É cada vez mais perceptível o quanto o mundo ocidental evita a angústia e busca a neutralização do desconforto e da dor psíquica (Elias, 2001; Ariès, 2003). Os contextos de hiper-medicalização e de discrição emocional presentes em nossa cultura contemporânea são dois fatores relevantes na compreensão da vivência do luto (Kouri, 2005, 2010). A negação do luto ocorre por meio de práticas sociais tais como, por exemplo, a imposição da volta ao trabalho após sete dias, como se houvesse um período pré-determinado para a passagem por esse processo. Em nossa sociedade são inúmeros os exemplos de práticas que apontam para o esvaziamento de reflexões sobre o findar-se, sobre a aceitação do fim do outro e de si mesmo.

Questões existenciais como a transitoriedade da vida, a efemeridade, a angústia, inerentes ao processo da morte e do morrer, são frequentemente evitadas. Paradoxalmente, os meios de comunicação apresentam a morte como um espetáculo fantástico, pasteurizado e desvinculado das existências individuais (Kovács, 2008). É o freak show da atualidade. A efemeridade da existência e sua marca fundamental, a angústia, são deslocadas da experiência vivida para o silêncio do tabu ou para o espetáculo do bizarro, como se sua ocorrência fosse um acidente estranho e evitável. Essa é a morte interdita, aquela percebida na atualidade como fracasso (Ariès, 2003; Kouri, 2010). Esquecemos que à medida que avançamos no tempo, somos pelo próprio tempo, chamados ao risco e às escolhas inerentes à precariedade do existir. Pensar sobre a morte e enunciá-la fora das esferas do tabu ou da perversão coletiva dos jornais sensacionalistas, nos permitirá encarar sua verdade e sua presença irrefutável, bem como as questões que lhes são inerentes, quiçá, minimizando o sofrimento que aí está envolvido, ao trazê-la como reflexão cotidiana.

A morte não é apenas afastada da atmosfera social e do discurso acadêmico, mas também do cotidiano das famílias e seus moribundos - que nos dias atuais, morrem nos hospitais, privados de maiores informações e possibilidades de decisão a respeito de sua própria vida, sem autonomia, pois, segundo Ariès (2003) a morte transformou-se em um fenômeno técnico, mera consequência da suspensão dos cuidados médico-hospitalares. Depois da morte de um parente, a sociedade que trata a morte como tabu exige da família enlutada o máximo de discrição (Freitas, 2009; Kouri, 2010), a modernidade não tolera o sofrimento, sempre associado à baixa produtividade e a falta de capacidade para lidar com seus sentimentos. Quanto aos enlutados, é preciso que lhes seja permitido viver e ressignificar a dor da perda, o que é violentamente vetado pela sociedade ocidental contemporânea, com baixa tolerância às expressões vinculadas à tristeza, frustração e perda.

No campo psicológico, Freud foi o primeiro a tecer apontamentos sobre o luto (Freud, 1917/2010). O luto é, segundo o autor, uma vivência normal, específica diante da perda significativa de um objeto. Tais vivências estão conscientes e implicam em um empobrecimento do mundo desde a falta de seu objeto de investimento. Seus sintomas seriam os mesmos da melancolia, com exceção da autoestima que não se encontraria perturbada (Freud, 1917/2010). A melancolia assinalaria um esvaziamento do ego, enquanto o luto, do mundo. Tanto o luto quanto a melancolia se caracterizariam por um profundo desânimo com perda do interesse pelo mundo externo, inibição da atividade em geral e incapacidade de amar, ou de substituição do objeto idealizado. Para o autor, haveria apenas dois destinos frente à perda: a elaboração bem sucedida ou a melancolia (Mendlowicz, 2000). Segundo Freud (1917/2010) a elaboração seria a possibilidade de (re)investimento libidinal em um novo objeto, ao desinvestir-se do anterior, supera-se sua perda. No decorrer da história do campo "psi" percebe-se uma proliferação e muitos avanços nos modos de compreensão dessa experiência, pois mesmo entre psicanalistas as conclusões de Freud são hoje questionadas, especialmente o fato de que a não elaboração do luto se destinaria sempre à melancolia (Mendlowicz, 2000).

Atualmente tende-se a compreender o luto como uma vivência imprevisível, inevitável e desconexa dos demais estágios vivenciados anteriormente no ciclo vital (Parkes, 1998). Segundo Kovács (1992, p. 150) "a morte como perda nos fala em primeiro lugar de um vínculo que se rompe, de forma irreversível, sobretudo quando ocorre perda real e concreta". Para a autora, a vivência do luto e seu tempo são variáveis, sendo que em alguns casos, nunca termina, embora estes ocorram com menos frequência. Em seus estudos defende que não é possível generalizar esta experiência, pois ela depende das causas e circunstâncias da perda, bem como do vínculo com aquele que morreu. Destaca que não há diferenças significativas entre o luto de crianças, adolescentes e adultos e que o traço mais permanente no luto é um sentimento de solidão.

O luto é frequentemente reportado na literatura psicológica, portanto, sob o viés da teoria do Apego, como uma reação à perda (Kovács, 1992; Bromberg, 1996; Parkes, 1998). Do ponto de vista da psicologia fenomenológico-existencial não encontramos literatura específica sobre o luto o que nos leva ao nosso objetivo central do presente texto: refletir sobre o luto a partir do ponto de vista da psicologia fenomenológica, descrevendo os seus aspectos vivenciais. Existencialmente o luto é aqui descrito como uma vivência típica em situações de transformação e mudança abrupta nas formas de se dar do ser em uma relação eu-tu.

A relação eu-tu é aqui entendida a partir da noção de intersubjetividade em Merleau-Ponty (1945/1994; 1969/2002). Para o autor, a intersubjetividade é uma estrutura da vida intencional que me revela em situação. É na presença do outro que nos tornamos visíveis a nós mesmos, onde a intercorporeidade é a troca primeira. Sendo com o outro um campo relacional, a coexistência em um mesmo mundo funda, por meio da intercorporeidade, as relações e as experiências subjetivas. A intersubjetividade é, portanto, a articulação da experiência, tornado-a possível (Merleau-Ponty, 1945/1994; 1969/2002).

A seguir expomos uma breve descrição reflexiva sobrea experiência do luto desde um olhar da psicologia fenomenológica, bem como reflexões sobre suas implicações e possíveis repercussões na prática psicológica, ausentes até o momento na literatura desta perspectiva teórica. Buscamos descrever o luto por meio da apresentação de um modelo compreensivo, resultante da análise reflexiva de suas propriedades e relações típicas desta vivência (Embree, 2011).

 1. Eu Sem Tu: Uma Proposta Compreensiva da Vivência do Luto

Caracteriza-se como luto a vivência experienciada após uma situação de perda significativa. O sentido da perda é um elemento fundamental para a compreensão desta experiência, especialmente quando se trata de um ente querido. O sentido da relação também. Com a apresentação da ausência do outro no mundo do "eu", a experiência do luto surge como essa novidade carente de sentido que coloca em jogo as especificidades relacionais, o horizonte histórico e o mundo-da-vida do enlutado.