sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A morte e o processo de luto na infância


Meu Primeiro Amor: a morte e o processo de luto na infância
Por Parcilene Fernandes
 Bacharel em Psicologia. Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA. 
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O filme é apresentado através do olhar de Vada (Anna Chlumsky), uma menina de 11 anos que mora com o pai e uma avó doente em uma casa-funerária.  A estreia do filme foi em 1991, um ano após o sucesso estrondoso de Esqueceram de Mim, o filme que transformou o menino Macaulay Culkin em um astro da indústria do cinema, apesar de ter apenas 10 anos.
E esse fato ocasionou uma das questões mais inquietantes na época do lançamento do filme: como levar crianças ao cinema para assistir ao menino sensação do momento ser morto por picadas de abelhas? Na época, muitas discussões vieram à tona, com partipação de psicólogos e pais, sobre o quão um filme como esse poderia afetar as crianças.
Mas, há uma forma ideal de falar sobre a morte com crianças? Há alguma idade adequada para tratar de um assunto tão complexo? A percepção da morte de um adulto por uma criança é diferente da percepção que ela terá da morte de outra criança?
Talvez o grande erro de qualquer linha de raciocínio que busque responder a essas questões está na apresentação de respostas generalizadas, considerando crianças em dada faixa etária como se fossem um único bloco, como se cada bloco sentisse de uma forma semelhante.
Machado(2006) diz que a forma como uma criança vive o luto e faz uma representação interna da morte varia de acordo com a idade, a personalidade, o estágio de desenvolvimento cognitivo e psicossocial, a intensidade com que ela vivencia a situação (proximidade, por exemplo), e, ainda, com aspectos mais gerais que tem relação com a cultura em que está inserida.
A menina do filme, Vada, é uma criança solitária, que se sente culpada pela morte da mãe (que morreu devido a complicações no parto), que não sabe como lidar com os corpos que são embalsamados no porão de sua casa (onde funciona a funerária) e que tem como único amigo, um menino tímido chamado Thomas J. (Macaulay Culkin).



Tendo como base os estágios de desenvolvimento da criança propostos por Piaget, Torres (2002) diz “que a criança só concebe a morte como um fenômeno irreversível a partir do estágio das operações concretas, mais ou menos aos sete anos de idade”. E Machado (2006) acrescenta que “somente entre os nove e os doze anos, na transição da infância para a adolescência, que se interioriza a morte como um fenômeno universal, irreversível e comum a todos os seres vivos”.



Por ter dificuldade em lidar com a ideia da morte, apesar de viver em um ambiente onde essa temática está presente de forma profunda, Vada aparece constantemente no consultório de um médico da família, alegando que está com alguma doença incurável. O pai, que vive em um mundo à parte desde a morte da esposa, não percebe a solidão e o medo da filha, especialmente, a sua insegurança perante a finitude da vida. Uma vida cercada por doenças e perdas.


“Cerco-me de pessoas que acho intelectualmente estimulantes.” (Vada)

Thomas J., ao contrário dos adultos do filme, conhece a menina, entende a dor que ela sente, sabe até como a ideia da morte a atinge. Mas é pequeno demais para transformar tudo isso em palavras. Algumas crianças (como alguns adultos) são mais sensíveis a dor dos outros. Essa sensibilidade pode refletir em pequenos gestos de grande impacto.



A amizade entre os dois deu a Vada a oportunidade de ter uma infância mais feliz, mesmo que a tragédia que se seguiu tivesse força suficiente para transformá-la para sempre.
De todas as cenas do filme, a mais “fofa” é a volta do lago (depois do beijo embaixo do Salgueiro), quando Thomas J. tem coragem de mostrar seus sentimentos, mesmo depois que Vada disse que se casaria com o professor de literatura (Sr. Bixler).

Vada?
 O que é?
 Pensaria em mim?
 Para quê?
 Se não casar com o Sr. Bixler.
 Acho que sim.

As cenas que se seguem após esse último encontro fizeram muitos pais terem que explicar aos filhos, muitas vezes cercados por um contexto em que a morte parece ser uma realidade tão distante, que crianças também podem vir a morrer.
No início do filme, Vada rouba um dinheiro da maquiadora dos defuntos (que depois se torna noiva de seu pai) para fazer um curso de poesia com o prof. Bixler. No entanto, sua primeira tentativa de fazer um poema resultou em um verso sobre sorvetes. Então, o professor sugeriu que ela tentasse se expressar através de sua alma, não apenas através de coisas concretas e cotidianas.  Somente ao final do filme, depois de alguns dias da morte do Thomas J., que ela conseguiu finalmente fazer uma poesia que mostrava, de fato, o que sentia.


 "Salgueiro chorão com lágrima escorrendo
 Por que você chora e fica gemendo?
 Será porque ele lhe deixou um dia?
 Será porque ficar aqui não mais podia?
 Em seus galhos ele se balançava
 E ainda espera a alegria que aquele balançar lhe dava
 Em sua sombra abrigo ele encontrou
 Imagina que seu sorriso jamais se acabou
 Salgueiro chorão pare de chorar
 Há algo que poderá lhe consolar
 Acha que a morte pra sempre os separou?
 Mas em seu coração pra sempre ficou."

Para Baker et al (1992), o processo do luto e do entendimento da morte consiste na vivência de etapas psicológicas que progressivamente visam superar a dor. A primeira etapa envolve a compreensão do que é a morte, suas características e a capacidade de reconhecê-la no cotidiano.  Nesta fase, é importante que as crianças se sintam autoprotegidas, ou seja, elas precisam compreender que o fato de uma pessoa morrer não significa, necessariamente, que elas ou suas famílias estejam em perigo imediato.
A fase intermediária envolve a compreensão de que a morte é uma realidade, logo é preciso aceitar as emoções que vêm junto com tal fato. Assim, as memórias e as conexões com a pessoa que partiu não é um mal a ser evitado, mas uma necessidade que advém da vivência do luto. Assim, não é uma atitude coerente dar às crianças a falsa esperança de que um ente querido pode "voltar" depois da morte ou, ainda, simplesmente começar a desestimular a conexão da criança com a pessoa que partiu (BAKER et al., 1992). Esta fase mostra uma grande diferença na maneira que crianças e adultos lamentam a perda.  Isso porque a maioria dos adultos, por entender o conceito da morte, não tem que gastar tanto tempo para descobrir o que aconteceu, ainda que o desaparecimento da pessoa de forma brutal do seu meio seja um fato impactante, mas a criança ainda terá que processar a ausência da pessoa sem, muitas vezes, ter a vivência e os elementos necessários para fazer uma representação disso.
A última fase deste processo envolve uma reorganização do sentido de identidade e das relações com os outros e com o meio ambiente. A criança terá que aprender a investir emocionalmente em si mesma e na relação com os outros, sem que o medo de perder alguém para a morte venha a ser um empecilho. Nesta fase, a criança bem ajustada ainda se lembra da pessoa amada, mas sem o medo excessivo que os outros também irão morrer, logo é capaz de lidar com essas lembranças e com as tristezas que as acompanha (BAKER et al., 1992).
Assim, voltando às questões iniciais sobre a vivência do luto na infância, talvez a melhor forma de lidar com uma criança que perde alguém é, primeiramente, estar disposto a conhecê-la, entender, mesmo que seja aos poucos, como ela percebe o mundo e como as coisas desse mundo a afetam. Cada um de nós tem uma lembrança relacionada à morte, e cada um de nós tenta encontrar formas de lidar com ela.  Para muitos, isso pode levar a lugares profundos e/ou sombrios, para outros pode ser um caminho menos tortuoso, mas, em qualquer situação, nunca parece ser uma estrada fácil para se percorrer sozinha.

Referências:
BAKER, J. E., SEDNEY, M. A., & Gross, E. Psychological tasks for bereaved children. American Journal of Orthopsychitray, 62, 105-116, 1992.
MACHADO, A. Como lidam as crianças com a morte/Luto. Revista no. 67 sinais vitais, Julho, p. 45-50, 2006.
TORRES, W. O Conceito de morte em crianças portadoras de doenças crônicas. Psicologia: teoria e pesquisa. Mai-Ago, vol. 18, n.2, p. 221-229-2002.