sábado, 25 de maio de 2013

Conhecer o Processo de Luto



Conhecer o Processo de Luto - Importante Ferramenta para o Profissional do Setor Funerário


No texto anterior falamos sobre algumas competências necessárias para aqueles que trabalham com o luto. Partimos do pressuposto de que as competências exigidas já delimitam, de certa forma, a especificidade do profissional desse setor. O segmento de cemitérios e funerárias parece não ter o devido reconhecido no mercado empresarial porque lida com a morte, assunto que nossa cultura tenta evitar. Desta crença equivocadamente, se imagina que qualquer pessoa pode trabalhar no setor, não sendo necessário especialização ou investimento de formação profissional.

Trabalhar com a Morte Requer Profissionalização:
O trabalho com a morte requer especialização e investimento, afinal nós não trabalhamos somente para a pessoa falecida, mas também para aqueles que se despedem dela e precisam de excelência no atendimento.

Na enquête feita pelo site FOL sobre as competências para lidar com a morte, pouca gente (5,34%) apontou o conhecimento do processo de luto como uma competência necessária para os profissionais do setor.

Gostaríamos de fazer algumas considerações sobre esse resultado.
A primeira delas é de que o próprio segmento pode não estar reconhecendo a necessidade de se profissionalizar. Neste sentido, profissionalizar significa ampliar o conhecimento sobre o campo de trabalho.

Outra consideração importante é quanto à idéia de que o conhecimento do luto é exclusivo da área da psicologia e, portanto, não poderá trazer contribuições para a atuação dos funcionários de cemitérios e funerárias. Temos acompanhado de perto o diferencial de um atendimento feito por uma equipe qualificada, ou seja, que teve formação no estudo do luto e pôde se apropriar de alguns conhecimentos necessários para lidar melhor com as famílias enlutadas.

Por que Entender Sobre Processo de Luto?
Compreender as manifestações de um processo de luto, principalmente nos estágios iniciais, ajuda muito no trabalho e no contato com os familiares enlutados para poder atendê-los em suas necessidades, uma vez que se encontram num estado emocional atípico e que tem características próprias.

Vejamos algumas características deste processo:

• Sensação de entorpecimento
Ao receber a notícia da morte, o enlutado entra num estado que chamamos de entorpecimento, ou seja, parece que a realidade e o sonho se misturam. Ele pode ficar assim por algumas horas ou até mesmo por alguns dias. Este estado de entorpecimento dificulta o enlutado pensar objetivamente, tomar decisões e resolver coisas, mesmo que sejam coisas simples.

Assim, já temos elementos para pensar que a abordagem dos profissionais de cemitérios e funerárias, deva ser diferenciada neste momento:

-em primeiro lugar o profissional, sabendo deste estado do enlutado deve orientá-lo de que precisarão tomar decisões objetivas e ver se ele mesmo quer fazê-lo ou se elege alguém da família que esteja em melhor condição.
- o profissional deve também ser claro, objetivo, repetitivo em algumas formalizações e muito paciente para explicar os procedimentos, pois a compreensão e o raciocínio do enlutado estão prejudicados neste momento.

• Sentimentos de desamparo 
A sensação de desamparo é algo muito forte no enlutado, de forma que as atitudes externas podem ampará-lo ou não. Se o funcionário que o atende for ético e sensível poderá ajudá-lo a buscar clareza nas decisões, dando mais orientações. Contudo o que vemos é que alguns profissionais se aproveitam deste estado de fragilidade para oferecer produtos e serviços desnecessários, priorizando interesses comerciais e não humanos.

• Raiva
O sentimento de tristeza do enlutado é reconhecido por todos, mas a raiva nem sempre é aceita pelo meio. Em geral, o enlutado pode vir a sentir muita raiva da vida, das pessoas, de Deus, dos médicos, do mundo. Estes sentimentos de raiva são intensos e refletem a incompreensão diante da morte. Não é raro que eles direcionem esta raiva também aos profissionais do cemitério ou funerária.

Neste caso, o profissional deve compreender que a raiva não é uma manifestação pessoal contra ele e ter o máximo de paciência e auto-controle no contato com o enlutado. Realmente não é fácil, mas é necessário.

• Emoções fortes
Um turbilhão de sensações e emoções invade o enlutado. O sofrimento psicológico parece colocá-lo numa forte agitação física ou num estágio quase letárgico. Fortes crises de choro e comportamentos incontidos podem aparecer neste momento. A intensidade das emoções pode desorientar a pessoa a tal ponto que esta apresente dificuldades para se localizar no tempo e no espaço. Desta forma, o profissional do setor funerário deve orientar as famílias enlutadas com relação à organização do cerimonial, espaços físicos do cemitério (banheiro, lanchonete, etc) e horários, funcionando como agente organizador num momento em que a desorganização pessoal é intensa. As manifestações acima descritas, fazem parte do inicio do processo de luto.

A dor da perca é parte do processo de luto, sendo necessária para que ele se efetive. È importante destacar que não cabe ao profissional do segmento de cemitérios e funerárias, aplacar ou tentar tirar a dor do luto. O importante é que se crie um campo adequado para que a dor do enlutado seja vivida de forma a não ser agravada ainda mais por fatores externos e por um atendimento inadequado.

Fonte: Ana Lúcia Naletto e Lélia Faleiros Oliveira são psicólogas do Centro Maiêutica e desenvolvem trabalhos na área de luto em cemitérios, crematórios e funerárias.www.centromaieutica.com.br